O mundo Encantado e o
Desencantamento do mundo
Max
Weber foi um sociólogo alemão que entre outros trabalhos preocupou-se em
explicar o processo de racionalização do mundo moderno em seu livro “O
desencantamento do mundo” nele Weber desenvolve a tese de que o processo de
racionalização, atrelado com o desenvolvimento da ciência contribuíram para uma
concepção utilitarista do homem, que é própria e necessária ao capitalismo.
Pois
bem, deixando de lado Max Weber lembremos que a contribuição da ciência sociológica
é propor ás pessoas uma interpretação de fatos que ocorrem sempre a nossa volta.
Cada teoria sociológica tem a capacidade de compreender um aspecto da
sociedade, um entendimento de algum fato. Vamos utilizar a perspectiva veberiana
para entender algo que aconteceu recentemente nos canais de TV paga.
Havia
um documentário cujo tema era “O novo Buda”, que, resumidamente, narrava a
história verídica de um menino no interior da Índia que, tal a história de
Sidarta Gautama tentava atingir a iluminação espiritual sentado debaixo de uma
árvore. Para quem não conhece a história de Buda podemos dizer, resumidamente,
que este era o nome de Sidarta Gautama depois que ele atingiu a Iluminação ou Nirvana.
Sidarta era um príncipe Indu que após se defrontar com as misérias humanas abandona
a família e a vida confortável de príncipe para fazer voto de miséria e castidade
com o intuito de atingir a Iluminação espiritual. Após inúmeras tentativas ele finalmente
se senta sob a copa de uma árvore e permanece ali por sete anos passando por inúmeras
expiações até que um dia consegue atingir o Nirvana e chegar ao ponto em que se
transforma em Buda – o Iluminado.
Voltemos
a historia recente, assim como o antigo Buda esse monge decide igualmente se sentar
a sombra do Bodhi Satori (Árvore da Iluminação) e permanecer até que consiga
atingir a Iluminação. Lembremos que Buda permaneceu na Árvore por sete anos. E agora
recentemente o nosso monge, diferentemente do Buda é acompanhado por milhares
de seguidores que anseiam por testemunhar a façanha do mesmo. Porém não temos
apenas testemunhas religiosas, posicionada em frente à Árvore, se aglutinam
muitos profissionais da imprensa, jornalistas e cientistas.
Os
motivos para elas ali estarem são o s mais diversos. Muitos esperam desmascarar
uma fraude, outros esperam por um furo de reportagem, outros o simples resultado documentário-jornalistico,
outras acreditam realmente que o monge atinja a Iluminação e esperam venerar o
seu mestre e alguns cientistas esperam analisar cientificamente o caso.
Passado
algumas horas em que o monge se colocou em meditação logo temos o documentário ilustrando
toda a sorte de teorias científicas explicando quanto ele poderia permanecer
ali sentado e do que poderia acontecer depois de horas sem comer nem ingerir líquidos.
Enfim todas as teorias sobre a possibilidade de permanência ou não do monge. Até
que um dia se passa e as teses científicas se intensificam cada vez mais. Depois
se passam mais 36 horas e surgem mais possibilidade e mais teorias.
Na
verdade o que jornalistas, cientistas, telespectadores, etc buscam é na realidade
um entendimento sistemático e racional para algo que escapa de sua compreensão.
Assim como alertava o sociólogo alemão Max Weber, o ser humano moderno não consegue
aceitar mais nada que não possa ser compreendido, que não seja racional. E mesmo
de outra natureza e propriamente sobrenatural, como é a religião, a tendência é colocar tudo
o que se ouve ou se vê, em um padrão
racional inteligível, ou mesmo palatável , aos nossos intelectos.
Por
fim, ao na hora do documentário dar um parecer sobre o desfecho que o monge
teve, ou mesmo se era para apontar algo, não vemos nada, não chegamos a conclusão
nenhuma, pois o doc indica que, o próprio monge cansado de ser observado se
retira e nunca mais é visto, chegam até mesmo a especular se ele não havia sido
sequestrado.
Aí
então respiramos aliviados, pois, com o
sumiço do monge perdemos a necessidade de analisar, decodificar, racionalizar,
especular, entender. Parece que sabiamente mais do que o Nirvana o monge nos
presenteia com a possibilidade de escaparmos de nós mesmos e da armadilha que
criamos para nós. O monge desapareceu, mas podemos voltar a respirar aliviados
com a certeza que o mundo agora pode voltar a ser encantado
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